quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Revista Brasileira de Educação - The question of metaphor, reference and sense in qualitative research: the contribution of socio-poetics

Revista Brasileira de Educação - The question of metaphor, reference and sense in qualitative research: the contribution of socio-poetics


A questão da metáfora, da referência e do sentido em pesquisas qualitativas: o aporte da sociopoética

The question of metaphor, reference and sense in qualitative research: the contribution of socio-poetics

Jacques Zanidê Gauthier

Lycée de Muret, Académie de Toulouse


RESUMO

Examina a questão da produção de sentidos heterogêneos pelos sujeitos e pelo pesquisador nas pesquisas qualitativas. Em referência ao conceito de agenciamento coletivo de enunciação e aos seus quatro componentes segundo Deleuze e Guattari, focaliza seu estudo sobre a questão da metáfora, do seu sentido e do mundo inter-referencial que ela cria na linguagem comum e no processo de pesquisa. Em referência aos estudos de Ricoeur e à semiótica de Peirce, mostra, com base em pesquisas recentes desenvolvidas na área da educação popular, como a sociopoética (método inovador de pesquisa que utiliza técnicas artísticas de produção de dados e confia no corpo inteiro como fonte de conhecimentos) articula os afetos e os conceitos, favorecendo assim vários tipos de abdução ou intuição. Isso permite a criação de confetos, intermediários entre o conceito e o afeto, assim como de conceitos filosóficos pelo grupo-pesquisador, sujeito e autor coletivo da pesquisa.

Palavras-chave: pesquisa qualitativa; sociopoética; metáfora; conceito


ABSTRACT

Considers the question of the production of heterogeneous meanings by the subjects and by the researcher in qualitative investigations. In reference to Deleuze and Guattari’s concept of collective stating arrangement and its four components, the article focuses its attention on the question of the metaphor, its meaning and the inter-referential world that it creates in common language and in the process of research. It reveals that with reference to Ricoeur’s studies and Peirce’s semiotics, and based on recent research in the domain of popular education, socio-poetics – an innovative method of research, which uses artistic techniques for the production of data and trusts in the whole body as a source of knowledge – articulates affects with concepts, and promotes different kinds of abduction or intuition. This promotes the creation of “confects”, intermediaries between concepts and affects, as well as the creation of philosophical concepts by the researcher-group, subject and collective author of the research.

Key-words: qualitative research; socio-poetics; metaphor; concept


A posição do pesquisador em relação aos sujeitos da pesquisa

A pesquisa qualitativa, na área de educação como em outras ciências do ser humano e da sociedade, possui umstatus cognitivo especial. O problema que desenvolvo aqui é o da relação entre o pesquisador e as pessoas sujeitos da pesquisa, em termos de produção de conhecimentos: Que tipo de conhecimentos cada um(a) produz, e qual o status da operação cognitiva específica, realizada pelo pesquisador a partir dos dados da pesquisa?

Essa questão é filosoficamente difícil, pois os dados de pesquisas qualitativas não são dados objetivos, positivos, brutos, e sim narrativas (histórias de vida…), entrevistas coletivas e individuais, produções artísticas, ou seja, produções de sentido. Os dados já são interpretações do mundo, dependentes de quadros conceituais culturalmente marcados, em que posições políticas estão em jogo, lutas simbólicas, fraturas e redes de alianças, que permitem a negociação e constituição do sentido. Autores como Bakhtin (1992), Bourdieu (1982) ou McLaren (1997) nos deram instrumentos teóricos para termos uma visão crítica e lúcida sobre as lutas na constituição do sentido das práticas sociais e na enunciação de palavras que revelem ou dissimulem esse sentido. Do seu lado, a etnometodologia e o interacionismo simbólico favorecem a compreensão das alianças e do implícito a partir dos quais os grupos se constituem como tais, ao produzirem identidades relativamente estáveis, negociadas e instituídas (Garfinkel, 1967). A corrente chamada de pós-colonial, com autores como Bhabha (1998), realiza uma forma de síntese entre a tradição centrada sobre o conflito, marcada pelo marxismo, e os aportes da microssociologia, referida a orientações fenomenológicas; assim podemos dizer que, no início do século XXI, o sujeito das enunciações, o eu falante, encontra-se cada vez mais no centro da problemática da constituição do sentido: ninguém pode falar no lugar dele, e só ele é dono de suas identidades - que foram descobertas como plurais, conflituosas e até provisórias -, assim como do sentido das suas palavras. O sujeito falante não é mais o rei cartesiano, uma consciência soberana. A crítica feita pelas filosofias da desconfiança (Nietzsche, Marx, Freud) é, neste ponto de vista, decisiva: a consciência de si traz muitas ilusões, ou seja, erros dos quais gostamos e, até, que participam do sentido que damos à nossa experiência e prática social. Mas os pensadores oriundos de povos que sofreram a colonização insistem em dizer que interpretar no lugar do outro o sentido de sua fala, como faz, às vezes, o pesquisador em relação aos sujeitos de sua pesquisa, é alienar esse outro, tirando-lhe sua própria humanidade de sujeito falante.

Deste ponto de vista, a abordagem proposta por Barbier (1993), baseando-se na noção de escuta sensível e em uma certa forma de consciência noética, permite instrumentalizar a pesquisa de campo em direção a um respeito da pluralidade, do íntimo e até do segredo. Eticamente, não se deve esquecer que pesquisar o outro é um ato de violência simbólica para com ele. Serres (1997, p. 15) formulou isso com vigor:

Observaram que a curiosidade exerce-se constantemente sobre os mortos e sobre os fracos sem defesa e nunca a propósito dos poderosos? Os sujeitos das ciências humanas diferem dos seus objetos, não são os mesmos homens. Já encontraram na estrada para Paris uma organização de camponeses indo para a capital para elucidar os usos dos seus administradores? Ou, voando para os Estados Unidos, encontraram no avião uma escola de Zulus ou de Guaranis, indo para realizar um seminário sobre alguns sábios em destaque da América? Outrora, os dominantes colonizavam os dominados, agora eles nos observam.

Queria que se inscrevesse nas constituições o direito dos homens e dos povos de recusarem ser estudados. (tradução minha)

Realizar uma pesquisa é assumir um status de poder sobre os sujeitos da pesquisa, a partir de um lugar cognitivoespecífico. Da mesma maneira que esses sujeitos produzem o sentido de suas palavras em complexos processos de lucidez e cegueira, luta e negociação, identificação e desidentificação, o pesquisador produz o sentido (em processos semelhantes de lucidez e cegueira, luta e negociação, identificação e desidentificação) de sua própria fala em direção aos pesquisados e, sobretudo, ele produz o sentido da escrita final de sua pesquisa, cuja existência não teria sido possível sem a participação e colaboração dos sujeitos da pesquisa (dissertação, tese, relatório de pós-doutorado…).

Os pesquisadores da nossa área, tendo conhecimento dos teóricos que fazem essas considerações, podem assumir uma posição de vigilância epistemológica, pois são teoricamente armados para irem ao campo de pesquisa. Eles possuem um olhar crítico a priori sobre a cegueira específica gerada pela sua posição de poder no saber (Foucault, 1976) e são teoricamente capazes de analisar sua implicação no seu objeto de pesquisa, ou seja, seu inconsciente institucional (Lourau, 1970; 1988): o que está em jogo e pertence de maneira escondida ao processo de pesquisa, à busca, à constituição do objeto de estudo e dos métodos de investigação no campo simbólico e ideológico, no campo pulsional, no campo material e organizacional?

A dificuldade começa quando se trata de ir além da proclamação da exigência ética de respeitar os desejos e direitos dos sujeitos da pesquisa e de construir um distanciamento crítico para com sua própria posição institucional. Quando, no decorrer mesmo da pesquisa, interferem esses processos complexos de produção de sentidos, a partir de posições de poder dissimétricas. Para pensarmos melhor o campo semântico assim criado, proponho retomar a questão do sentido e da referência. Mas não se tratará de repetir as discussões clássicas de Bertrand Russell (1961) e Frege (1952) no campo da lógica, independentemente dos aportes das recentes teorias lingüísticas da enunciação. Encontramos na obra de Deleuze e Guattari (1980) uma conceitualização, desses aportes, diretamente utilizável pelos pesquisadores de campo.

Agenciamentos maquínicos e enunciativos

Segundo Deleuze e Guattari (1980, p. 112), existe um duplo agenciamento, de conteúdo e de expressão que chamamos duplagem:

O agenciamento maquínico de corpos, ações e paixões, mistura de corpos agindo uns sobre os outros.

O agenciamento coletivo de enunciação, de atos e enunciados, transformações incorporais atribuindo-se aos corpos (grifos do original).

Os autores continuam precisando:

[...] o agenciamento tem, de um lado, lados territoriais ou reterritorializados, que o estabilizam, e de outro lado,pontas de desterritorialização, que o levam embora (idem).

O que é um agenciamento maquínico de corpos, ações e paixões?

Corpos atraem-se, repulsam-se, alteram-se, fazem alianças, combinam-se em aliagens, expandem-se, penetram-se, excluem-se. Esses corpos podem ser corpos ou partes ou grupos de corpos humanos, e seres naturais, ferramentas, máquinas, energias, que se compõem ou transformam segundo regras, em tempos e lugares instituídos. Assim, a vida familiar numa classe dada da sociedade é um agenciamento maquínico, outro é a vida numa faculdade, ainda outro uma organização comunitária. O importante é que existem nessa máquina física poços de captura, que atraem as energias em pontos instituídos, repetitivos, reprodutores dele, devoradores; e existem, inversamente, linhas de fugas desejantes, criadoras de jogos não previstos, que nem sempre vêm por vontade própria das pessoas, mas perpassam o conjunto de corpos e afetos. Uma forma de desordem criadora, de caos na organização.

O que é um agenciamento coletivo de enunciação?

Ele é composto das múltiplas falas e discursos possíveis que produzem a subjetividade - essa não é individual, e sim coletiva, conectando signos diversos. As enunciações não representam os conteúdos (os corpos e afetos), pois possuem forma e coerência próprias. Elas podem antecipar, atrasar, tirar, cortar, juntar diferentemente… esses conteúdos. Retomemos os exemplos da cultura familiar, ou universitária, ou comunitária. Vê-se facilmente a importância desse agenciamento complexo de enunciados na constituição mesmo da subjetividade, assim como daquilo que é chamado de cultura. Existem poços, rios, trilhas, avenidas, terras, ventos, fronteiras, fluxos, toda uma geografia onde as palavras se juntam, comem, pegam, apagam, superpõem, parasitam, traem, espalham, escondem. Aqui também, o relevante é a existência de pontos de territorialização, que atraem vários discursos no mesmo campo semântico, fazem ecoar uns em outros, conectando-os, ou então supercodificando, numa forma geral dominante, conteúdos diversos. É por um processo de supercodificação que se produz o que Gramsci (1977) chamava de cultura hegemônica. Mas existem também pontos de desterritorialização, expressões de desejo instituintes, palavras que não podem ser capturadas pela ordem instituída. O que a linguagem política chama deculturas de resistência são conjuntos de linhas que convergem em direção a um território, ou até criam um território novo, cuja ordem semiótica é heterogênea em relação à ordem instituída, e não é capturada. Como na filosofia de Michel Foucault, as relações de poder e desejo estruturam o campo de enunciação (Deleuze & Guattari, 1980, p. 101):"Não há significância que seja independente dos significados dominantes, não há subjetivação que seja independente da ordem estabelecida de sujeição".

Bacias de captura1 interligadas geram o que é chamado de cultura dominante ou hegemônica, enquanto agenciamentos discursivos heterogêneos, parcialmente capturados por esses significados dominantes, produzem o que é chamado de cultura dominada. Por exemplo, a canção popular, quando submissa aos padrões estéticos e econômicos do showbiz, ou ainda as formas de expressão dos afro-descendentes, quando tornadas invisíveis ou folclorizadas em padrões utilizados pelas classes dominantes.

Uma forma de resistência interna a um agenciamento é a variação, que dificulta qualquer forma de codificação prévia. Multiplicar as variações, des-homogeneizar, é criar a autonomia, resistir à média onde mora a maioria. Criar ligações inesperadas é uma outra forma de resistência. É a desterritorialização, a emergência de desejos instituintes.

Os componentes dos agenciamentos coletivos de enunciação

Os agenciamentos coletivos de enunciação podem viver segundo quatro componentes de signos diferentes (Deleuze & Guattari, 1980, p. 181-182), que a pragmática ou esquizo-análise, ou ainda rizomática, estuda. Conscientizar-se desses componentes é de fundamental importância na análise dos dados, ou seja, na análise do agenciamento coletivo de enunciação produzido pelos participantes da pesquisa. Encontramos:

  • O componente generativo, que mostra como toda expressão combina vários regimes de signos. Isso significa, por exemplo, que não existe uma cultura pura, que não se pode adjetivar de maneira unívoca a cultura. Por exemplo, expressões como cultura popular, cultura indígena ou cultura burguesa não possuem nenhum sentido unívoco, sendo geradas por combinações de desejos (Deleuze & Guattari, 1980) e por articulações de poder (Foucault, 1976). Não é necessário uma coerência a priori entre os elementos interligados para que se criem constantes, comportamentos previsíveis, habitus. A coerência pode ser criada après-coup, por um processo de supercodificação, de ecos que se reforçam mutuamente. Para o pesquisador, o difícil é desconfiar da armadilha da coerência e da coesão entre os discursos, pois muitas vezes essa coerência só tem por função simplificar e homogeneizar o que é heterogêneo. O erro é acreditar na unicidade orgânica das formas de vida discursiva e incorporar essa simplicidade. Diante disso, a pesquisa resgata a polissemia dos signos. Não se deve temer a ambigüidade, a ambivalência e o paradoxo, que sempre são índices de um problema interessante.
  • O segundo componente é, na teoria de Deleuze e Guattari (1980), o componente transformacional, que mostra como um regime pode ser traduzido num outro, e um novo ser criado a partir de transformações.Um exemplo conhecido é o nascimento do candomblé no Brasil, por interferência entre formas de vida coletiva e espiritual características de vários povos africanos deportados pela escravidão. Uma questão vai ser de se entender como tal criação transformacional pode agir em outras áreas da realidade, até que ponto ela pode ser traduzida na esfera do trabalho, da vida do bairro, da educação etc. É muito provável que, num país que se fez pela imigração e miscigenação, forçadas ou voluntárias, os processos discursivos de tradução e transformação estejam muito ativos nos posicionamentos dos sujeitos falantes nas nossas pesquisas.
  • O terceiro componente enunciativo é o componente diagramático, em que é visível como signos são extraídos de formas originárias, aparecendo como partículas desterritorializadas, capazes de serem combinadas entre elas. O samba carioca nasceu provavelmente dessa forma, a partir de tradições musicais do povo negro (samba de roda de ritmo Cabula), em interação com a classe média branca, com um complexo sistema de irrupção de marcadores rítmicos e corporais negros,e de tentativas de controle social da parte das classes dominantes.A MPB é rica de criações do que Deleuze e Guattari (1980, p. 183) chamam de "[...] dialeto do gozo, de físicas e semióticas em pedaços, de afetos não subjetivos, de signos que nada significam, onde caem a sintaxe, a semântica e a lógica". Podem ser o pior ou o melhor, o xarope e a vulgaridade de algumas produções comerciais, mas também a desarticulação do corpo e o nascimento de sopros nunca ouvidos. Encontramos aqui os marcadores da semiótica corporal infra-lingüística,2 que vários autores (Bakhtin, 1970; Kristeva, 1969) valorizaram muito pelo entendimento do sentido político do que é dito e sugerido. Com efeito, o corpo é o lugar em que os valores podem ser invertidos (no pensamento carnavalesco de Rabelais, segundo Bakhtin) e em que as entonações, os gritos e sussurros expressam o que escapa da ordem semântica: da intencionalidade racional, das classificações políticas impostas entre o que pode ser dito e como, e o que não pode ser expresso. Nossas pesquisas não podem perder essa dimensão, particularmente explícita nas classes populares, da constituição do sentido das práticas sociais pelos sujeitos das pesquisas educacionais.
  • O quarto componente é o componente maquínico, em que os dois agenciamentos, as duplagens, interferem uma na outra. As expressões modificam os corpos e as paixões, enquanto esses geram formas de expressão novas. Alguns chamam isso de práxis, outros de clínica. Em pesquisas cujo método consiste em transformar para conhecer, ou seja, introduzir uma perturbação no meio para estudar as suas reações, esse componente está particularmente presente.

Essa caracterização dos componentes enunciativos por Deleuze e Guattari é muito interessante, por ser fácil de usar na análise dos dados em nossas pesquisas. Além disso, ela realiza uma boa síntese dos conhecimentos trazidos pela lingüística do discurso e da enunciação. É só seguirmos esse quadro de pensamento e ganharemos muito em termos de precisão nas análises enunciativas dos dados.

A questão da metáfora, do sentido e da referência

Para facilitar tal procedimento, é desejável tomar como foco prioritário de estudo as metáforas utilizadas pelos sujeitos da pesquisa. Por que as metáforas?

Porque elas possuem um status ambíguo na linguagem, que tornam fáceis de serem vistas as ligações entre agenciamentos, as desterritorializações dos significados, as traduções de um regime de signo para um outro e a combinação desses regimes, ou seja, os quatro componentes enunciativos acima mencionados.

Com efeito, além de definirem a metáfora como uma comparação implícita entre termos oriundos de registros heterogêneos, muitos lingüistas (Ricoeur, 1975) consideram-na como uma regra constitutiva da língua que indica como se pode encontrar ou criar um objeto diferente e semelhante, e, ao mesmo tempo, apresentar intuitivamente o ícone desse objeto. Portanto, a metáfora está entre o mundo do sentido (interno à linguagem) e o mundo da referência (da realidade não-lingüística). Ela é o índice de um trabalho do espírito, que elabora um conflito, uma tensão dentro da língua (entre o que a metáfora é, por ser semelhante, e o que ela não é, por ser diferente), e entre a língua e o real (pois a metáfora visa a algo que não está dado, que não está presente, eladá vida a um produto da imaginação).

Em minhas pesquisas, essa característica de se dar entre os significados e entre a língua e o mundo, faz da metáfora um potente instrumento de identificação do sentido que os sujeitos projetam no mundo. Nossa escuta sensível pode tranqüilamente ser focalizada nas metáforas das gravações oriundas de minhas pesquisas de campo; tenho certeza de encontrar aí um tesouro de dados interessantes. Com efeito, metáforas usadas, quando escolhidas pelos sujeitos das pesquisas, apontam para uma certa dependência para com as ideologias instituídas, para um certo fechamento numa territorialização prévia, enquanto a criação de metáforas vivas, como diz Ricoeur, quebra as categorizações congeladas da língua e do mundo, resgatando o poder classificador originário da linguagem e criando um esboço de significações (discursivas) e percepções (intuitivas) novas. Paul Ricoeur (1975, p. 263) fala, até, de "desmancho das áreas semânticas sob o choque das contradições".

Hester (1967) relaciona diretamente essa característica das metáforas ao poder de metaforização, que é um dos princípios geradores da linguagem. Uma metáfora tomada a sério obriga o ouvinte a suspender sua relação instituída com o real, já constituída de muitas metáforas mortas, esquecidas, que caíram fora do campo da consciência, e a abrir-se para o virtual: ver-como é deixar acontecer o evento do fluxo das imagens, deixar-setrabalhar pela imaginação criadora, sem perder de vista que esse fluxo não acontece sem regra nem ordem, e sim é um produto de condições sócio-históricas (coletivas e individuais) que trabalham a linguagem coletiva, assim como nossa fala privativa.

Entre pensamento e experiência, entre o coletivo e o singular, a metáfora é, como escreve Ricoeur (1975, p. 271), "a solução de um enigma", ou seja, o paradoxo da passagem intuitiva para o não-verbal (ver a imagem), através um tropismo da língua.

Em termos de pesquisa qualitativa, encontramos aqui essa tensão muito produtiva, para nós pesquisadores da área educacional, entre os conhecimentos prévios dos sujeitos da pesquisa e o que eles sabem não saber, ou melhor, querem e imaginam, mas sabem ainda não saber. Será que aí se vai constituindo uma vygotskiana zona de desenvolvimento proximal,3 no próprio processo de pesquisa, entre os sujeitos da pesquisa e o pesquisador?

Além dessa importância cognitiva, Bachelard (1957, p. 7) expressa a importância ontológica da imagem poética:

[...] ela torna-se um ser novo da nossa linguagem, ela nos expressa ao fazer de nós o que ela está expressando, ou seja, ela é, ao mesmo tempo, um devir de expressão e um devir de nosso ser. Aqui, a expressão cria algo do ser.

Para nós, pesquisadores, é de fundamental importância o sétimo estudo, "Metáfora e referência", da obra citada de Ricoeur (1975), A metáfora viva. O sentido das falas ditas e/ou escritas, numa pesquisa qualitativa, seja pelo pesquisador acadêmico, seja pelos sujeitos da pesquisa, está totalmente dentro do que é dito. Geralmente, os lógicos concordam com Russell e Wittgenstein que, contra as visões positivistas e científicas comuns (armadilha na qual o desencantamento do mundo nos faz cair), chamam os fatos de existência de estados de coisas, expressando assim que os fatos são, na verdade, atos predicativos da mente humana. O fato não é a referência, aquilo que existe em si. A referência denotada pela descrição (há…) pode somente ser aquilo que é visado pelo mundo do sentido, pelo discurso. Agora, o que podemos dizer sobre o que somente está aqui, ou não está? Areferência,chamada por Frege de denotação,abre para o além do dito, ou seja, para aquilo sobre o qual é dito o sentido. Isto é, nas nossas pesquisas, para o mundo social visado. Conhecemos esse mundo referencial em negativo: ao falarem, os sujeitos da pesquisa torcem o sentido das palavras comuns, segundo a singularidade de cada situação, visão, projeto. É essa singularidade que devemos apontar, para podermos, em seguida, interrogá-la em relação à sua contribuição para efeitos enunciativos reprodutores das metáforas instituídas ou criadores de metáforas novas, vivas, entrando em composições, traduções, diagramas ou máquinas enunciativas que a teoria proposta por Deleuze e Guattari permitem identificar.

É esse processo de torção, no qual algo é dito do real ao mesmo tempo que dito de outro jeito, estranhando o familiar, ou seja, visando uma realidade outra, virtual, que está presente na metáfora viva como emergência de um sentido ainda desconhecido. Chamamos de sociopoética nosso método de pesquisa método no sentido de Morin (1986), ou seja, caminho que se faz caminhando, mais aberto para o imprevisto do que seria uma metodologia precisamente porque estamos atentos à experiência radical que a poesia propõe: em lugar de descrever o que é dado, como faz o uso comum, positivista e utilitarista, da linguagem, ela afasta do julgamento comum e pretende ir até o limite da potência de criar o mundo, presente na linguagem (Coletivo de autores, 1999; Gauthier, 1999a).

O poema como agenciamento discursivo é uma unidade metafórica: como a metáfora, mas num sentido mais amplo, ele transfere o que era pertinente em certos agenciamentos de corpos no mundo das coisas sem interesse e dá a maior pertinência ao que era impertinente. Cabe aos leitores fazerem uma parte do caminho.

Como um poema o realiza de maneira radical, a metáfora traz tensões num mundo que se apresentava como pacífico, desproblematizado. É isso que é apaixonante para os pesquisadores que buscam uma reproblematizaçãodo mundo. E quem vai reproblematizar esse mundo, a não ser os próprios sujeitos da pesquisa, no quadro de um dispositivo que facilite essa operação cognitiva?

Além disso, a metáfora cria suas referências num modo virtual, o que permite à lingüista Hesse (1965) falar deficções heurísticas e afirmar que a racionalidade se constitui, nas próprias ciências, pela expansão de metáforas, de onde surgem os principais modelos cognitivos utilizados pelos físicos. Como os modelos científicos, os mitos funcionariam segundo esse mesmo princípio de expansão metafórica, apresentando coisas humanas na forma de aventuras divinas sistematizadas.

Daí o aspecto social contido na palavra sociopoética. A poética presente na criação verbal dos participantes da pesquisa funciona de modo coletivo, marcado cultural e socialmente, e também de modo cooperativo: na produção coletiva de um mundo metafórico, ou melhor, na interferência de metáforas referidas a mundos semânticos heterogêneos, o grupo das pessoas sujeitos da pesquisa elabora ficções, desenha modelos de uma realidade sem dúvida complexa e imaginária, mas racional. O dispositivo de pesquisa deve, nesse momento, ser suficientemente potente para catalisar a expansão poética desse processo de metaforização e, em seguida, favorecer sua análise crítica pelos próprios sujeitos da pesquisa.

O interessante é que a ficção heurística vem da impertinência semântica contida na metáfora. Da qualidade de suas tensões internas e da pertinência de sua impertinência (de seu deslocamento problematizador das referências) depende a justeza da metáfora, ou, para falar como Foucault (1976), seus efeitos de verdade.

Impertinência semântica e abdução

Como processo cognitivo, a metáfora é um raio que gera uma nova categoria de conhecimento envolvendo dois campos de saber, alterando nossa compreensão de um como do outro e, sobretudo, realizando um deslocamento no pensamento, uma fuga criadora em direção a terras novas. Ela favorece processos intelectuais intuitivos. Isso é particularmente relevante nos estudos culturais, quando interferem campos de saber e aprendizagem heterogêneos.

Lembremos as quatro formas de abdução, forma lógica que a língua comum chama de intuição, segundo Peirce4(Eco, 1991, p. 228-229): hipercodificada, ela acontece quando interpretamos o significado de uma palavra a partir de uma reconstrução do contexto; hipocodificada, quando escolhemos uma hipótese entre várias, baseados na crença da regularidade do mundo; criativa, quando reinventamos uma lei deste mundo, por exemplo, ao intuirmos relações inesperadas entre áreas heterogêneas; a quarta forma é a meta-abdução, quando decidimos que o universo que imaginamos no nosso pensamento corresponde ao universo da nossa experiência cotidiana. Para Umberto Eco, esta última forma caracteriza a criação científica e a investigação policial.

Encontramos, diretamente, na terceira e na quarta forma de abdução, a ação da metáfora na construção do conhecimento.

Particularmente, é provável que nas nossas pesquisas interculturais encontremos freqüentemente, nas metáforas utilizadas pelos sujeitos das pesquisas, abduções potenciais, que só precisamos desenvolver, em parceria com o grupo-pesquisador. Sebeok e Umiker-Sebeok (1991, p. 23) afirmam que a abdução gera um tipo de emoção que a coloca à parte da dedução e da indução. O desafio cognitivo toma a forma de uma emoção na nossa relação com o que chamamos de mundo e na nossa crença nas formas desse mundo. Será que essa emoção é a mesma que encontramos no nosso relacionamento com os sujeitos de nossas pesquisas, que pertencem a mundos cognitivos não homogêneos com o nosso? Sem a abdução não existiria a própria vida, acrescentam Sebeok e Umiker-Sebeok. É um instinto que percebe as conexões inconscientes do mundo, é a comunicação subliminar de mensagens.

Eles referem-se diretamente a Peirce (1935-1966, par. 2.643). Essa citação é muito esclarecedora e merece ser reproduzida in extenso, pois dá uma sustentação teórica ao nosso método sociopoético de pesquisa:

A hipótese substitui uma concepção simples por um complexo emaranhado de predicados vinculados a um sujeito. Mas, há uma sensação peculiar pertencente ao ato de pensar que cada um desses predicados impregna no sujeito. Na inferência hipotética, esse sentimento complexo, assim produzido, é substituído por um sentimento simples de maior intensidade, aquele que pertence ao ato de pensar a conclusão hipotética5. Agora, quando nosso sistema nervoso é excitado de uma maneira complexa, havendo uma relação entre os elementos da excitação, o resultado é um distúrbio harmônico singular, o qual eu chamo de emoção. Deste modo, os vários sons produzidos pelos instrumentos de uma orquestra incidem sobre o ouvido e o resultado é uma emoção musical peculiar, inteiramente distinta dos próprios sons. Essa emoção é, essencialmente, o mesmo que uma inferência hipotética, e qualquer inferência hipotética implica a formação de uma tal emoção. Podemos dizer, portanto, que a hipótese produz o elemento sensual dopensamento e a indução o elemento habitual. (grifos do original)

O segredo de nossas pesquisas?

A metáfora é intimamente ligada ao processo de raciocínio abdutivo: ela cria elos entre áreas heterogêneas da realidade; através desses elos passam emoções e sensualidade. Geralmente, esses elementos estão explicitamente agindo nas pesquisas qualitativas, mas temos dificuldades em analisá-los.

É possível afirmar que para nós, pesquisadores em educação, a metáfora é a via real em direção ao implícito da vida cognitiva dos sujeitos de nossas pesquisas e à compreensão da nossa relação com esses sujeitos. Somos principalmente caçadores de metáforas, na fala e nos silêncios de nossos parceiros em pesquisas. Isso, segundo dois eixos: as metáforas tornam problemático um dado da experiência social e educacional que parecia óbvio; além disso, elas favorecem a abdução, sem a qual não há descobertas científicas, como afirma Peirce. Ricoeur (1975, p. 321) fala de veemência ontológica, e podemos falar de energização do agenciamento coletivo de enunciação. Na página 291, Ricoeur sintetiza esses aspectos, ao escrever: "A excelência estética é uma excelência cognitiva".

A metáfora liga arte e ciência, pois a invenção por aproximação de estruturas heterogêneas é a base de potentesefeitos de verdade em várias áreas da prática social.

Será que sem metáforas não há pesquisa, logo, nenhuma descoberta?

É só ampliar essa visão da força metafórica da língua comum, falada por pessoas comuns, para se perguntar se, finalmente, existe uma referência última, realista, que seria como o solo do núcleo comum a todas as representações, e então responder, obviamente, que não. As metáforas ecoam umas às outras, pois nenhum sentido, nas enunciações cotidianas, existe sem ter conexões com referências múltiplas, dimensões heterogêneas da vida social (componente generativa). Nessa rede de ecos nascem metáforas vivas (componentediagramático). O saber mais abstrato possui ligações recíprocas com afetos e emoções (componente maquínico).

Assim deve a pesquisa qualitativa visar explicitamente às interferências, ou seja, às denotações co-presentes (mesmo que geralmente heterogêneas) na experiência de cada um (componente transformacional), enquanto essa experiência possui um sentido que a pessoa pode expressar. Isso relaciona a metáfora com as formas hipercodificada e hipocodificada da abdução segundo Peirce, pois tanto a reconstrução do contexto como a crença na regularidade do mundo acontecem em referências interligadas, na mente de cada sujeito da pesquisa.

A metáfora é o vínculo privilegiado que transporta os sentidos da vida cotidiana de um mundo semântico para um outro, participando da co-construção de agenciamentos coletivos de enunciação. É a experiência prática da vida, base da criatividade popular, como mostrou com força Certeau (1980). Acontece também esse tipo de construção quando desenvolvemos uma pesquisa científica. Isso nos dá a responsabilidade de estarmos atentos a todas as formas de abdução virtualmente contidas nas metáforas, ou seja, hiper e hipocodificada, criativa e meta-abdutiva.

A sociopoética

Daí surge a idéia de inventar um dispositivo de pesquisa que favoreça a investigação das relações entre os sujeitos da pesquisa, das interferências ou inter-referências constitutivas da intencionalidade de se dar um mundo comum e de criar, por metáforas, um mundo poético por certo heterogêneo, mas compartilhado, no próprio processo de pesquisa. O grupo-sujeito, segundo Sartre (1960), origem filosófica dos grupos donos do processo de pesquisa-ação no sentido de Barbier (1998), próximo do círculo de cultura segundo Paulo Freire (Freire, 1987), pode ser chamado de grupo-pesquisador, numa concepção da pesquisa qualitativa que focaliza a pesquisa como processo, ou seja, como ela transforma o meio onde acontece, enfatizando as perguntas seguintes: Quais os efeitos produzidos pelo processo de pesquisa entre os sujeitos?; Quais, entre seus conhecimentos plurais (seus enunciados)? Outra pergunta: Quais os efeitos produzidos entre seus conhecimentos de um lado, e seus afetos, de outro lado? Ou melhor, por que as coisas não são separadas assim, para quem trabalha com máquinas enunciativas: O que acontece no entre-dois do saber e do sentir? Isso, no grupo inteiro, que inclui o pesquisador acadêmico chamado de facilitador da pesquisa. De fato, uma pesquisa sociopoética é uma auto-análise coletiva, facilitada por pessoas praticando dispositivos e técnicas apropriados.

O grupo-pesquisador

Para responder a esse tipo de pergunta, e também poder observar afetos e saberes no estado nascente, ou seja, emergentes, é preciso constituir um grupo-pesquisador, responsável pelo desenvolvimento do processo de pesquisa, pois assim interagem afetos desindividualizados e vão criando-se figuras novas e emergentes a partir dos conhecimentos presentes no grupo. Essa instituição dos sujeitos da pesquisa em grupo-pesquisador é o primeiro princípio da sociopoética.

As culturas dominantes e de resistência

O segundo princípio da sociopoética, considerando a dialética que se vai instituindo entre o pesquisador acadêmico e os demais membros do grupo-pesquisador chamados de co-pesquisadores, é, logicamente, o princípio da valorização das culturas dominadas e de resistência na produção e leitura dos dados. Com efeito, por razões que podem ser de recalcamento por causa de repressão e sofrimento (opressão dos corpos e das mentes) ou de culto dado ao segredo, ao silêncio e ao corpo (culturas negras e indígenas), a leitura clara do que é dito e não-dito nas metáforas, do que elas estão visando, intuindo e ignorando, não é possível pelas meras armas teóricas do racionalismo. É necessário a ajuda de fontes de leitura mais intuitivas, sensíveis e até simbólicas, para que se entenda a complexa riqueza das imagens metafóricas. Já se cria a metáfora na interseção de mundos com apalavramentos e acertos (segundo a expressão de Sodré, 1999) heterogêneos.6 É impossível deixar se perder essa riqueza intercultural que percorre o mundo semântico brasileiro: as referências negras e indígenas possuem essa força cognitiva ímpar de relacionarem-se diretamente com o que Julia Kristeva chama deelemento semiótico pulsional e corporal, ou seja, com o componente propriamente maquínico da duplagem entre os agenciamentos maquínicos de corpos e afetos e os agenciamentos coletivos de enunciação, o componente mais complexo e sensível a devires transformadores.

Conhecer com o corpo inteiro

O terceiro princípio da sociopoética é conhecer com o corpo inteiro: a emoção, as sensações, a intuição, a gestualidade, a imaginação… e não apenas com a razão. Ele vem de práticas sociais dominadas no mundo intelectual de hoje: de enfermeiros que mexem com os corpos doentes e aprendem, na sua prática, a conhecer com o corpo inteiro; de pesquisadores em educação popular que encontram corpos dançando, cantando, rodando, festejando apesar de marcados pelo açoite físico ou moral. De vários componentes populares da sociedade brasileira, principalmente de origem africana e indígena. Muitas vezes, a pele, os nervos, os músculos, as pernas, o útero, a ginga… sabem o que o cérebro esquerdo ainda não sabe simbolizar. Varela, Thompson e Rosch (1993) nos lembram que a forma mais relevante de conhecer, origem de outras formas mais descontextualizadas, é conhecer pela prática, resolvendo problemas vitais que mobilizam o corpo inteiro, com todas as suas faculdades de adaptação e criação (gestualidade, sentidos, categorização, imaginação, emoção, criação de conceitos, intuição…). Muitos especialistas das ciências contemporâneas concordam em afirmar que o relevante é entender e compreender como são produzidos os conhecimentos, isso influenciando o quê (o conteúdo, o significado) dos conhecimentos produzidos.7

Técnicas artísticas de produção de dados

Obviamente, é muito mais fácil estudar metáforas quando se usam técnicas de pesquisa favorecendo um processo de metaforização da experiência pelos próprios sujeitos da pesquisa. Isso constitui o quarto princípio da sociopoética. Precisamos, no mundo da pesquisa qualitativa, de várias técnicas artísticas de produção de dados. Como existe uma arte-educação, existe igualmente uma arte-pesquisa. Colocar o grupo-sujeito da pesquisa numa posição criadora permite ganhar em dois terrenos: em primeiro lugar, no levantamento dos preconceitos e elementos ideológicos instituídos que envenenam a vida intelectual (inclusive a vida dos pesquisadores acadêmicos, que aprendem dos demais membros do grupo-pesquisador a olharem suas costas, sua sombra preconceituosa, ou seja, o que ficou não-analisável antes do encontro com os parceiros de pesquisa); em segundo lugar, na observação (na presença atenta, diz o zen-budismo, segundo Varela, Thompson e Rosch, 1993) do modo de as imagens e metáforas novas, criadas na interação, emergirem aqui e agora, e dos ambíguos ou dialéticos significados que se vão tecendo e torcendo no grupo-pesquisador.

Luís Vítor Castro Júnior, Maria Geovanda Batista e Jacques Gauthier (2003) expressam isso ao apontarem a etimologia da palavra ilusão, através do latim il-ludere, que inclui o brincar. Maria Geovanda Batista foi facilitadora, com a ajuda de mulheres idosas Pataxó, de uma pesquisa sociopoética sobre os sentidos do brincar no mundo do povo indígena Pataxó. Os referidos autores escrevem:

Com o grupo-pesquisador Pataxó, a atividade ritual-lúdica está sendo traçada como mussaraitáua - brinquedo nopidjin caboclo, que significa etimologicamente lugar-de-esquecer. Esquecer o inútil, aquilo que impede a presença imediata, a intuição. Outra construção no plano, que se contrapõe à visão do ritual como droga, ópio do povo(Marx), ilusão (da raiz latina il-ludere, brincar em) vital da força de vida (Nietzsche), já enganada pelos Portugueses procurando os habitantes das Índias ou, mais provavelmente, a terra da redenção. Ao rizomatizarmos com sua própria cultura, suas memórias e com a imaginação mito-poética, fomos evidenciando uma nova compreensão do brincar, porque todos os Índios brincam. E brincam juntos, crianças, jovens, adultos e velhos, participam dos jogos de uma maneira complementar, cooperativa e muito semelhante. Do mesmo modo, como é semelhante, a participação das crianças no trabalho coletivo, na produção artística e em tudo que diz respeito à produção deste brincar. (no prelo)

Vê-se nesse exemplo como a metáfora do brincar como lugar-de-esquecer, consolidada na língua, é como uma imagem dialética, que condensa tanto a tradição ancestral e a história como a abertura para devires inesperadose desejados, por serem o modo coletivo de se intuirem conhecimentos, até mesmo pela busca iniciática do transe.

O sentido da pesquisa

O quinto e último princípio da sociopoética diz respeito à responsabilidade do grupo-pesquisador na socialização dos resultados e na interrogação do sentido social, político, ético, espiritual da pesquisa. Nada de moralista nisso, podendo a pesquisa ser, com proveito em termos de produção de conhecimentos, correta ou perversa: isso depende dos desejos do grupo-pesquisador.

A metáfora viva e o confeto em pesquisas sociopoéticas

No quadro limitado deste artigo, quero dar somente o exemplo de uma técnica artística (no caso, poética) favorecendo a visibilidade de metáforas, mortas ou vivas, instituídas na língua ou que emergem no seio do grupo-pesquisador, ou seja, provar aos leitores que nossa discussão teórica tem efeitos práticos interessantes para nós e nossos orientandos.

Numa pesquisa apoiada pelo CNPq, realizada com três grupos-pesquisadores de uma escola comunitária de Salvador (BA), de crianças, de educadoras e de pais e mães, colocamos, após realização de um relaxamento tendo por objetivo um menor controle racional sobre a fluidez das imagens que surgem, as seguintes perguntas:

Se as coisas mais importantes que você aprendeu, na vida, na escola, na família, na rua, fossem uma Terra, como seria essa terra? Após vinte segundos: Se fosse um Túnel, como seria esse túnel?… Se fosse um Caminho?… Um Labirinto?… Um Arco-íris?… Uma Ponte?… Uma Gruta?… Uma Galáxia? (Gauthier, 1999b)

As crianças desenham e, numa outra sessão de pesquisa, comentam seus desenhos em relação ao conceito de aprendizagem. Essa técnica é chamada de técnica dos lugares geomíticos. O objetivo da pesquisa era comparar as aprendizagens e os saberes mais significativos para os três grupos-pesquisadores, o que interessava muito à própria escola comunitária que estava num processo de avaliação de seu trabalho educativo. Rapidamente a pesquisa se tornou uma pesquisa intercultural, por causa da freqüência da associação das imagens vistas pelos co-pesquisadores com temas culturalmente marcados no mundo afro-brasileiro baiano.

A técnica é explicitamente indutora de metáforas. Selecionando algumas metáforas particularmente vivas e problematizadoras da vida cognitiva das crianças, temos, no lugar Labirinto, as falas seguintes, comentários dos seus desenhos pelas crianças (Gauthier, 1999b, p. 317):

Apostando correndo sozinha, a menina muito alegre foi ajudada pelos bichos [em outros lugares muito perigosos, podendo comer a menina] a matar um ser humano (Esta menina é abusada, ela se chama Carla Perez, comenta M., a autora da imagem);

[...] uma princesa desmaiou de fome e sede, procurando uma saída, conforme uma estória lida pela autora da imagem, I., que gosta muito de estórias de princesas. Opostos a isso, os deveres chatos quando se repetem;

Na aula de arte misturamos as cores, como aconteceu no passeio que fizemos e que serviu de quadro para a prova de biologia (e chegou a pergunta: De que cor são os anjos?);

Existem saberes nos quais é melhor não entrar, por medo de não poder sair, como o saber das drogas, ou como quando, frente à criança curiosa, os adultos (pai ou professora) se contradizem, ou não dão explicações satisfatórias, ou praticam avaliações arbitrárias.

Cruzando essas metáforas com outras oriundas de outros lugares geomíticos, os facilitadores puderam propor para contra-análise, ou seja, avaliação pelas crianças e discussão problematizadora, uma forma de pensamento metafórico do grupo-pesquisador inteiro (o que Ricoeur chama de verdade metafórica). Esse pensamento é constituído de seres intermediários entre o afeto e o conceito, que chamamos na sociopoética de confetos. Por exemplo, a solidariedade cognitiva pode minimizar certos perigos. A arte possui também esse poder: no Arco-íris, ela assume uma parte de morte, ódio e mau-olhado. Sem a arte, a gente mataria, parecem afirmar as crianças. Aqui, arte e solidariedade cognitiva são confetos.

No método sociopoético, é solicitado aos co-pesquisadores pensarem com base nessa conclusão aberta. Essa reflexão pode gerar transformações pessoais ou institucionais, ou não. O grupo-pesquisador produziu seu próprio questionamento e os facilitadores não pretendem induzir respostas ou mudanças. Essas dependem do grupo hóspede da pesquisa e do desejo de cada ator co-pesquisador.

Conclusão: a questão da interpretação e da conceitualização

Existe um importante trabalho dos filósofos, em duas direções: seja para darem vida às metáforas, ao ouvirem o que está subliminarmente cantando na linguagem e encantando-o, seja para criticarem o que a metáfora carrega de não analisado no conceito e apurá-lo desses elementos meio afetivos, intuitivos e confusos. Aliás, geralmente os filósofos trabalham nas duas direções, pois se trabalhassem somente na primeira eles seriam poetas, e se trabalhassem somente na segunda sem vida seria a sua língua filosófica, cortada da criatividade da linguagem cotidiana.

Interpretar é um processo que acontece entre tirar a máscara da metáfora e respeitar seu segredo. Apesar de suas orientações filosóficas muito diferentes, tanto Deleuze e Guattari (1991) como Ricoeur (1975) insistem para que se diferencie o mundo do conceito filosófico do mundo do afeto e da metáfora: não se pode confundir o plano de imanência,onde nascem os problemas e seus afetos próprios, com o plano de consistência,onde insisteme interligam-se os conceitos, para Deleuze e Guattari; nem omundo da metáfora, vida da língua que ignora a separação entre emoção e cognição, com o mundo do conceito, pensamento especulativo que possui seu próprio regime discursivo, para Ricoeur.

Como vemos, a sociopoética favorece a criação de confetos. Mas, como pesquisadores, precisamos igualmente de conceitos distanciados das cores, dos toques, dos cheiros, dos sons e dos gostos violentos e doces, maravilhosos e vergonhosos que constituem, para nós, o sentido da vida, metáfora gigantesca, sublime e terrível. Kant, no parágrafo 49 da sua terceira Crítica (1987, p. 144), expressa essa idéia com gênio, ao mostrar que a apresentação da Idéia pela imaginação obriga o pensamento conceitual a pensar mais: "Ao ampliar esteticamente o próprio conceito de maneira ilimitada, a imaginação torna-se criadora e coloca em movimento a faculdade das Idéias intelectuais (a razão)". Isso, acrescenta Kant, "[...] a fim de pensar, na oportunidade de uma representação […] muito mais que aquilo que pode ser entendido nela e claramente concebido". E Ricoeur completa (1975, p.383): "[...] toda interpretação visa a reinscrever o esboço semântico desenhado pela enunciação metafórica num horizonte de compreensão disponível e conceitualmente dominável".

Assim, assume a sociopoética o desafio da tradução outra forma de transporte, diferente da metáfora dosconfetos em conceitos. Isso é o momento que Deleuze e Guattari chamam de desterritorialização, sendo o conceito caracterizado pelas suas potências de fugir de todo quadro de produção (sócio-histórico) dado e de entrar em combinações intensivas com outros conceitos. O conceito vai variar, intensificar, combinar, criando as condições dos problemas identificados (Deleuze & Guattari, 1991, p. 26-28). Os conceitos são: "centros de vibrações, cada um em si e uns em relação aos outros".

Do lado de Ricoeur, o conceito vai entrar em diálogo com outras criações filosóficas, radicalmente distanciadas da experiência. Na língua de Deleuze e Guattari, um conceito vai ser experimentado,8 na língua de Ricoeur,interpretado. Nos dois casos, ele vai ganhar sua autonomia em relação a seu contexto de emergência.

A sociopoética pretende atender a essa exigência, pela análise do pensamento do grupo-pesquisador como se o grupo fosse um filósofo só, criador de conceitos. Aí o grupo-pesquisador precisa da ajuda do facilitador da pesquisa, que tranqüilamente, em casa, vai se perguntar: Como esse grupo estrutura o mundo que ele vai construindo através da pesquisa? Primeiro, quais as linhas de separação ou exclusão que ele traça, nas palavras usadas por ele para dizer sua experiência em relação ao tema orientador da pesquisa? (momento das análises classificatórias). Segundo, quais as ligações secretas que ele estabelece entre vários planos dessa experiência?(momento do estudo transversal).9

Esse trabalho é difícil, mas permite a elaboração de conceitos desterritorializados, que não são mais misturados com afetos, que o grupo vai, em seguida, discutir, criticar, avaliar e experimentar, conforme nossa concepção peirceana da conclusão hipotética. Pode ser um conceito inovador da prática educacional, nunca pensado antes da pesquisa, ou mais humildemente, um conceito desterritorializado nas margens dessa prática, mas que pode trazer amplas mudanças na instituição, por causa de sua potência intensiva, ou de variação, ou de ligação, ou de contaminação. Um único conceito criado e exposto com alegria vale um doutorado inteiro, e não anula as intensidades vivenciadas com os atores da pesquisa. Pelo contrário, ele potencializa essas intensidades, ao voar como uma águia, ou um gavião, gritando seu ritornelo.

Darei somente um exemplo de tal conceito co-criado pelo grupo-pesquisador de crianças da Escola Comunitária Luiza Mahim em Salvador, em colaboração com os facilitadores da referida pesquisa financiada pelo CNPq, que pesquisaram as estruturas implícitas do pensamento do grupo-pesquisador.10

É o conceito mesmo de aprendizagem, assim definido: é um momento na busca da sabedoria da vida, que acontece por um processo mais global de cuidar do outro, de sonhar com ele, em que a beleza, a sede de justiça e a solidariedade têm um papel determinante. Paz, proteção e firmeza, segurança e autolegitimação são buscadas na conquista dos saberes, apesar de as crianças desconfiarem das provas e das lógicas instituídas. Vivenciando processos de lento amadurecimento, elas buscam a ancestralidade e suas raízes, criando ludicamente e pela arte sua própria potência-no-saber, diferente da potência do outro, como seres aprendentes. Experimentam com paixão na busca do saber. Parasitando, até, outros saberes, as crianças não ignoram a empatia e a intuição como fontes de aprendizagem. Procurando o respeito mútuo, elas alteram-se e conseguem, às vezes, traduzir os saberes uns em outros, tentando iniciar sua entrada num espaço novo, o espaço do conhecimento, com regras próprias. Sua paixão está dirigida contra a fragmentação do saber e contra a exclusão, pelos saberes academicamente legítimos, da sabedoria da vida.

Vemos aqui funcionar um conceito deleuziano, como centro de vibrações e variações, intensidade desterritorializada, que se combina em rede com outros conceitos. Obviamente, esse resultado não é independente do projeto político-pedagógico da escola, que os alunos conhecem. Sem dúvida, os comentários dos jovens co-pesquisadores sobre suas produções metafóricas não são totalmente livres dessa pressão institucional implícita.

Mas nunca podíamos prever, antes de realizarmos essa pesquisa, ou seja, esse tipo de pesquisa metaforizante, o grande peso das tradições africana e indígena no modo de aprender das crianças, cuidando do outro e procurando a sabedoria da vida. O que teríamos encontrado se tivéssemos somente utilizado técnicas de entrevista, sem termos tentado revelar parte do inconsciente institucional pela mediação da metaforização artística e sem termos analisado o pensamento do grupo-pesquisador como um todo, como se esse grupo-sujeito de crianças fosse um filósofo individual?

Provavelmente, resultados mais previsíveis, já presentes na consciência e na razão das pessoas.

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Recebido em agosto de 2003
Aprovado em novembro de 2003

JACQUES ZANIDÊ GAUTHIER, doutor em ciências da educação pela Universidade de Paris VIII, é professor de filosofia no Lycée de Muret, da Académie de Toulouse. Dentre suas publicações mais importantes, organizou GAUTHIER, Jacques, CABRAL, Ivone, SANTOS, Iraci, TAVARES, Cláudia M. Pesquisa em enfermagem:novas metodologias aplicadas (Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 1998); GAUTHIER, Jacques, FLEURI, Reinaldo M., GRANDO, Beleni S. Uma pesquisa sociopoética: o índio, o negro e o branco no imaginário de pesquisadores da área de educação (Florianópolis: Núcleo de Publicações da UFSC, 2001); e publicou: GAUTHIER, Jacques e GAUTHIER, Leliana de Sousa. Le rapport au savoir comparé d'élèves, de parents et d'enseignants d'écoles de périphérie à Salvador de Bahia (Brésil): étude sociopoétique. In: CHARLOT, Bernard (org.). Les jeunes et le savoir:perspectives internationales (Paris: Anthropos/Economica, 2001). Pesquisa em desenvolvimento: A relação com o saber de alunos, professores e pais de uma escola comunitária francesa (La Prairie, Toulouse). E-mail:socpoet@wanadoo.fr
1 Em francês, bassins de capture é um conceito oriundo da teoria das catástrofes, atribuída ao matemático René Thom. Pode ser traduzido também como atratores, em referência à física do caos.
2 Aqui encontramos um problema de definições: Benveniste (1966) chama de semântica a constituição do sentido ao nível lógico da frase, por oposição à semiótica, concebida ao nível do signo. Isso permite a problematização da intencionalidade e do implícito e abre caminhos para as futuras análises de discurso. Já Kristeva (1969) chama desemiótica a constituição do sentido a partir das pulsões, da ordem e desordem do corpo, cuja linguagem pré-semântica participa da elaboração inconsciente do sentido político da práxis.
3 Vygotski (1985) criou o conceito de zona de desenvolvimento proximal a partir da relação dialética entre o nível de desenvolvimento potencial e o nível de desenvolvimento real. Essa zona borda a trajetória que o sujeito percorre para desenvolver níveis de amadurecimento das estruturas simples a partir de estruturas complexas que ele ainda não conquistou de forma independente, mas que, com a ajuda do outro, ele consegue atualizar.
4 A questão da abdução na semiótica de Peirce é tratada sob múltiplos aspectos por vários autores. Ver Eco e Sebeok (orgs.), 1991.
5 Essa noção de conclusão hipotética é de fundamental importância nas pesquisas qualitativas. Na sociopoética, os facilitadores de pesquisa podem somente concluir hipoteticamente. Eles vivem potentes emoções na sua relação com os demais membros do grupo-pesquisador. A devolução dessas hipóteses para o grupo permite, ao mesmo tempo, uma negociação dialógica dos resultados da pesquisa e o distanciamento de cada um de suas implicações emocionais e cognitivas no tema-gerador da pesquisa.
6 O apalavramento é uma raiz, um rizoma discursivo plantado numa terra sociocultural que liga o sujeito enunciativo a uma comunidade por uma promessa e uma fidelidade. O acerto é o processo de negociação que liga o sujeito, coletivo ou individual, a sujeitos ou comunidades de fora. Apalavramento e acerto são de fundamental importância nas comunidades afro-brasileiras e permitem definir o conceito de comunalidade como "ligado a um conjunto de redes de alianças comunitárias que instituem formas de expansão e afirmação existencial de umcontinuum civilizatório" (Santos, 2001, p. 37).
7 Essa problemática percorre a obra de Michel Serres, particularmente os cinco volumes de Hermes (1969, 1972, 1974, 1977 e 1980). Sobre a questão do corpo, citaremos Serres (1985).
8 "Um conceito exige […] uma encruzilhada de problemas, onde ele se alia com outros conceitos co-existentes" (Deleuze & Guattari, 1991, p. 24). E, na página 25: "O conceito de um pássaro não se encontra na sua espécie mas na composição de suas posturas, cores e cantos". E ainda, página 26: "O conceito diz o evento, não a essência ou a coisa".
9 O processo de produção de metáforas vivas é particularmente solicitado, na sociopoética, no momento surreal, quando se pede aos co-pesquisadores para criarem novas imagens, oriundas dos encontros inesperados que aconteceram durante esses estudos classificatórios e transversais.
10 Ver uma apresentação dessa pesquisa em Gauthier e Gauthier, 2001, p. 69-89.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

BREVE LÉXICO LIBERTÁRIO-GUATTARIANO


Continuo publicando trechos de minha tese de doutorado "CORPOS MOVEDIÇOS, VIVÊNCIAS LIBERTÁRIAS: a criação de confetos sociopoéticos acerca da autogestão", hoje me dedicando ao GLOSSÁRIO dos termos usados ao longo do trabalho; e inspirado no léxico escrito por Guattari ao final do seu livro Micropolítica: cartografias do desejo, organizado por Suely Rolnik.


BREVE LÉXICO LIBERTÁRIO-GUATTARIANO

Ação Direta – contrafluxo anárquico de negação da representação e da espetacularização da vida; agir sem a interferência de mediadores; a vida pulsa longe da representatividade. Autoorganização e intervenção sobre; afundar baleeiros japoneses e noruegueses, por exemplo.

Ação luddita – Ação direta destrutiva; tática de guerrilha nos ambientes de produção da mercadoria (a fábrica, a casa, a escola, nossas cabeças, etc…), cujo propósito é fazer desaparecer os focos fascistas e a lógica do capital. Destruição construtiva. Os ludditas, trabalhadores industriais destruidores das máquinas no início do século XIX… um movimento corporal contra a economia industrial capitalista (BOURDEAU; JARRIGE; VINCENT, 2006)

Aforismo – um nano-ensaio que opera a nível molecular gerando mutações progressivas a um ponto molar insuportável.

Batalha de Seattle – efetivação de uma ética libertária contra o poder, multidão de singularidades como força produtora de outras subjetivações anárquicas, deslocamentos no espaço-tempo da anarquia; reapropriação do devir-guerrilha urbana anti-capital.

Black Block – Bloco negro anarquista, movendo-se como tática de enfrentamento a partir de princípios de guerrilha urbana; agrupamento dinâmico, de ação direta, de contestação agressiva, e anti-pacifista, pela via da destruição da propriedade privada e da resistência ao capitalismo das megacorporações. [vide Batalha de Seattle]

Reclaim The Streets [RTS] – Corpos em movimento, ocupando ruas, avenidas, improvisando barricadas com equipamentos urbanos; [des]organização coletiva de ação direta anti-capital; tática de desobediência civil forjada na dança, na ocupação das ruas por bicicletas brancas, na festa pública orgiástica e hedonista. Em Seattle, ocuparam quarteirões inteiros, com uma megafesta-bicicletada, de forma a impedir o acesso dos delegados das nações à reunião da OMC. [vide Batalha de Seattle]

Coletivo Libertário – grupelho de devires e subjetivações múltiplas, atravessados por fluxos desejantes e produzindo linhas de fuga incessantes; materializado em subjetividades plurais em constante ebulição e desaparecimento, desterritorializando-se vertiginosamente. Máquina de guerra nômade, corpos em movimento.

Freegans - coletadores nômades contemporâneos – respigadores urbanos, construindo novas subjetivações anti-mercadoria. O freegan transita sem consumir.

Anti-Édipo, o – uma demarcação de território, um desejo de construir um-outro-absolutamente-diferente (!) que fuja (como de fato foge!) do pensar dogmático, da representação platônica, dos fascismos.

Patches – remendos de pano com material impresso contendo mensagens subversivas… todo punk sabe remendar sua própria roupa… e costurar seus próprios patches. Linha e agulha fazem parte do arsenal de guerra punk.

Édipo – modelização falocrática, o patriarcal eterno fascista.

Vegan – paleta de cores e tons variados, mas com um único propósito: extensão de uma ética da vida a todos os animais não-humanos; prática vegetariana como ação política; epifania de sabores.

Vegetarianismo Político – ambientalismo da boca para dentro; vide Vegan.

Macaquínico – agenciamentos maquínicos deleuzeanos experimentados pelo Coletivo 12 Macacos; delírio no campo social levado a cabo pelos 12 macacos.

Okupa – squatt, ocupação; território em constante desterritorializações; reordenamento dos equipamentos urbanos de maneira a atender aos interesses libertários por uma vida anti-consumo e anti-estado; a criação efetiva de outras e novas experimentações grupais e familiares.

Zine – espaço autônomo de produção e circulação de desejos; revistinhas subversivas, disseminadoras de insurgências libertárias; o punk criou o zine, o zine [re]criou o punk.

ELF – Earth Libertation Front, tática de ação direta sem centro decisório, organizada a libertar a Terra da ação do capital transnacional e toda sorte de presença tecnológica destruidora da vida. Ação clandestina radical e ultra-violenta de eco-terrorismo. Qualquer pessoa, qualquer grupo, em qualquer lugar do planeta, em qualquer momento, pode e deve organizar uma ação ELF. Autoorganiza-se e autodissolve-se, para ressurgir em lugar distintos, com pessoas distintas, com propósitos distintos. Incêndios em mansões na Califórnia em áreas de preservação, ataques incendiários a concessionárias de automóveis off-road, são táticas ELF contemporâneas.

Do It Yourself – o velho faça-você-mesmo punk; atitude por excelência dos grupos libertários; faça você mesmo seu zine, faça você mesmo sua horta, sua comida, sua educação, faça você mesmo seus deslocamentos urbanos, faça você mesmo a luta contra o capital, contra o Estado, contra o trabalho;

TAZ – desagravo profundo a todas as formas fixas; rebelião que não confronta o Estado diretamente, mas opera um agenciamento de “…guerrilha que libera uma área (de terra, de tempo, de imaginação) e se dissolve para se re-fazer em outro lugar e outro momento, antes que o Estado possa esmagá-lo” (BEY, 2001, p. 17). nenhum respeito por nada… uma ofensa imperdoável aos cânones anarquistas, aos militantes da santa igreja dogmática do anarquismo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Entrevista com Simon Reynolds

Bom, pessoal, o Reynolds tem publicado pela Conrad um livrinho muito interessante chamado "Beijar o Céu", onde elearticular vários gêneros musicais com a teoria dos filósofos da diferença Gilles Deleuze & Felix Guattari, e foi responsável pelo termo "pós-punk"... a entrevista foi publicada parcialmente em 20 de agosto deste ano... boa leitura.

sandroca


Entrevista de André Barcinski [Folha de S.Paulo e UOL] com o crítico musical inglês Simon Reynolds sobre Rock & Cultura Pop


No livro, você diz que tem um filho pequeno. Ele é fã de música? Como você compara a sua própria experiência, crescendo como um fã de música nos anos 70 e 80, à experiência do seu filho?

Kieran tem 11 anos e não parece muito interessado em música. Possivelmente, por ter um pai que é crítico de música e que fica tocando música o tempo todo e de todos os tipos, muitas vezes música estranha. É como se música fosse o “meu” negócio e ele estivesse em busca do negócio “dele’.

Kiean adora videogames, diferentemente de mim, que nunca fui interessado nisso. E ele também adora qualquer coisa relacionada a computadores – e-mail, Youtube, Ebay. Ele cresceu como parte da geração conectada. Este é seu mundo.

Acredito que, para a geração dele, música é legal e divertido, mas não tem a mesma importância que teve para a minha geração ou para a geração que sucedeu a minha, a juventude dos anos 90.

Nós realmente víamos a música como a principal arena cultural, era o que nos explicava a nós mesmos e parecia se conectar a todas as outras áreas da cultura e política. Se você, como eu, era ligado em punk e pós-punk, então lia certo tipo de livros, via certo tipo de filmes, tinha interesse em teoria crítica e outras coisas do tipo. Acho que a música foi relegada a ser apenas uma pequena parte do horizonte cultural, e não a parte principal.

Minha filha Tasmin tem 5 anos e ama música. Ela adora dançar, tem um bom senso rítmico e é capaz de passos incríveis, algo no meio do caminho entre o break e artes marciais. Ela tem artistas favoritos, como Pink, Justin Bieber, Ke$ha e Katy Perry. Basicamente, ela gosta de qualquer coisa que toque no rádio e que pareça uma versão pop do Techno e da house music que eu dançava nos anos 90. Ela curte melodia e ritmo, basicamente.


Você acha que a facilidade em baixar música tem, de certa maneira, desvalorizado a música?

Pessoas de tendência liberal ou de esquerda muitas vezes têm um reflexo anticapitalista de dizer: “Que bom que a música é de graça agora, que não está apenas enriquecendo corporações”. Mas sou da opinião que isso não tem funcionado muito bem para a música.

Claramente, é um desastre para os artistas e para a indústria. Mas também para ouvintes e fãs. Veja bem: quando a música custava dinheiro e vinha numa forma sólida, em que, para consegui-la, você tinha de ir a uma loja, e isso envolvia tempo e dinheiro, as pessoas davam mais valor a ela.

A equação é simples: se você gastou dinheiro num bem cultural, seja um livro, revista, disco, etc., você vai gastar tempo tentando extrair o máximo dele. Se você gasta dinheiro com um CD, vai prestar atenção nele quando tocá-lo, e vai tocá-lo mais vezes. Se você obtém um CD de graça, na forma de downloads, você fica mais propenso a ouvir poucas vezes e de uma forma mais distraída. Você vai ouvir a música enquanto faz outras coisas no computador (chamam a isso de “síndrome de atenção parcial”), e você muitas vezes nem vai ouvir o disco todo.

Além disso, se você vive baixando muita música, como as pessoas tendem a fazer quando conseguem música de graça, é matematicamente mais provável que você ouça cada canção menos vezes. E muitos discos só começam a se revelar totalmente depois de repetidas audições.

Para responder à sua pergunta: sim, eu diria que a cultura digital se fundamenta na facilidade, e que a facilidade de acesso e o custo mínimo de aquisição têm levado a uma depreciação no valor da música e à degradação da experiência audiófila.

Mesmo os artistas novos que você elogia no livro – Ariel Pink, por exemplo – fizeram suas carreiras reinterpretando o passado. Você consegue enxergar algo realmente novo sendo feito hoje em dia?

Sim, vejo um número razoável de coisas que eu poderia descrever como relativamente novo ou vagamente inovador. Mas aquelas coisas que, de vez em quando, surgiam como “Uau! FUTURISTA!”, essas sumiram, são cada vez mais raras.

Nos anos 90, havia vários gêneros ou movimentos que pareciam grandes ondas de inovação que se sustentaram por vários anos, ou por toda a década: gêneros como jungle, R&B, street rap ou dancehall.

Nos últimos dez anos, parece que os gêneros se tornaram quase estáticos, mas, de vez em quando, no meio de tanta coisa banal e mundana, você via o brilho de algo realmente novo. Em R&B, por exemplo, uma vez ou outra você via algo realmente extraordinário como “Umbrella”, da Rihanna, ou “Single Ladies", da Beyoncé.

O dubstep me parece uma extensão dos anos 90, como um tipo de versão adulta e lenta de jungle. Mas produz algumas coisas excitantes: o EP homônimo do Zomby e partes de seu novo álbum, ”Dedication”, que saiu pelo selo 4AD, as faixas de Cooly G no selo Hyperdub, algumas coisas de James Blake e Ramadanman.

Na música eletrônica tem gente fazendo coisas interessantes: Ricardo Villalobos, Actress, Tobias... Nomes como Oneohtrix, Point Never e Laurel Halo se inspiram muito no passado – música analógica de sintetizadores dos anos 70 e 80, New Age, etc., mas é inegável que fizeram coisas novas.

Uma das áreas onde, acredito, coisas muito interessantes vêm aparecendo é a área de manipulação de vozes: texturização digital de vocais, aceleração e redução de vocais, micro-edição de “samples” de voz. Você pode ouvir isso em música eletrônica extrema e underground (Burial, James Blake) e também no gênero witch house (Salem, etc.), e até na música pop mais comercial (Black Eyed Peas, Ke$ha).

Isso é excitante, embora, se você pensar bem, pode ser rastreado aos anos 90 e a coisas com vocais sampleados que produtores de house e jungle fizeram. Sem esquecer Cher e de sua faixa “Believe”, em 1999, com vocal manipulado via Autotune!


Há algumas semanas, o Arctic Monkeys colocou na web seu novo álbum para os fãs ouvirem. Cada faixa tinha um contador, que permitia ver quantas vezes havia sido ouvida. Mais de 75% das pessoas que ouviram a primeira música não chegaram à última. Você acha que isso pode ser explicado mais pelo déficit de atenção do público, ou pelo fim do LP como um formato de lançamento viável?

Acho que se refere ao que escrevi sobre a depreciação no valor da música e os efeitos da cultura digital na capacidade de atenção do público. O problema de ouvir música via computador ou Iphone conectado à Internet é que o mesmo portal que está conectando você à música é também capaz de, simultaneamente, conectá-lo a milhões de outras coisas. Então, há uma tentação irresistível a clicar em outra coisa e fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo – checar e-mails, baixar mais música, etc. Então você raramente está imerso apenas na música.

Publicações na web são criadas para desestimular o leitor a terminar de ler qualquer artigo, porque elas têm uma série de links coloridos e que chamam a atenção. As publicações não querem que você termine o artigo, porque querem o maior número possível de cliques. Quanto mais você pular de uma parte a outra, melhor para eles.

Você acredita que a mesma visão que seu livro traz da música pode ser estendida ao cinema? Me parece que, desde o surgimento de Tarantino, Robert Rodriguez e outros diretores criados à base de filmes velhos em vídeo e TV a cabo, o cinema tem se tornado cada vez mais uma colcha de retalhos de outros filmes.

Não me parece tão crônico em cinema quanto em música. Você está certo sobre Tarantino, ele é o exemplo óbvio de um fenômeno que detalho em meu livro, que é o do “curador-criador”. E se no rock existem as “bandas de colecionadores de discos”, com músicos que trabalharam em lojas de discos (como Ariel Pink, por exemplo), o mesmo aconteceu com Tarantino, que foi balconista de uma locadora de filmes. Foi ali que ele criou todo seu conhecimento sobre filmes e sistematicamente dissecou a história do cinema. Então faz sentido que seus filmes sejam baseados em vários estilos e repletos de piadas e sacadas com filmes antigos. O mesmo ocorre com Jim Jarmusch.

Tenho uma filha de três anos. Alguns dias atrás, montei minha velha vitrola e toquei alguns discos para ela. Foi fascinante perceber a reação de alguém que, nascida na era digital, teve, pela primeira vez, a chance de ver uma agulha tocando num pedaço de plástico e produzindo som. Você acha que esse aspecto tátil da música, tanto no ouvir música quanto na produção, está mudando a maneira como a música é percebida?

É claro que existe algo de muito estranho na música pop moderna, em que se simula a energia e o som de música tocada ao vivo, mas onde toda a integridade da performance foi desvirtuada pelo uso de elementos de copy/paste que permitem mover a música e torná-la “perfeita”. Você consegue perceber, quase subliminarmente, que o que você está ouvindo não é real.
  
Não é de hoje que gravações de rock têm sido melhoradas por “overdubs” e erros têm sido consertados por edições e substituições, mas hoje vivemos a era em que os sons se tornaram apenas uma massa que pode ser processada ou mudada a gosto.

De uma certa forma, é exatamente como eu imaginava a música com o pós-rock, mas, em outro nível, tem uma certa fraudulência no ar, já que simula o som de uma banda tocando ao vivo. Depois, quando você adiciona tratamentos como compressão e AutoTune, o resultado é algo realmente horrível de escutar.

Em gêneros como hip hop, R&B e dance music, isso não parece importar muito, já que são gêneros antinaturais, dependentes da tecnologia e onde não há sequer a intenção de simular “pessoas tocando juntas num estúdio”.

Como autor e alguém que depende de seus livros e artigos para sobreviver, como você vê a troca de arquivos na Internet?

Bom, é ótimo poder achar aquele disco raro que eu sempre quis. Mas, de maneira geral, a troca de arquivos tem sido muito ruim para a minha apreciação de música. Para uma pessoa como eu, que cresceu numa época em que música custava dinheiro, ter música de graça na internet é como ganhar a chave da maior loja de discos do mundo. O problema é que nosso tempo não é infinito.


Eu adorei seu livro, mas tenho de confessor que me deixou triste, porque o futuro não parece muito promissor. Como a experiência de escrevê-lo te afetou?

Quando comecei, estava perplexo e ansioso pelo estado da música e, embora eu tenha encontrado muitas explicações no caminho, por meio de minha pesquisa e pensamentos sobre o assunto, terminei exatamente como comecei: perplexo e ansioso.

Concluí que há muita coisa legal para ouvir, mas que a maioria envolve, de certa forma, a reinterpretação do passado. Não tenho ouvido coisas que, na época, me pareceram tão novas e radicais quanto “Remain in Light”, do Talking Heads, por exemplo, um disco que, especialmente no segundo lado, parece conter em cada canção uma nova direção para a música.

Tenho acompanhado o lado eletrônico-techno-rave da música, mas a primeira década do século 21 parece ter atingido um ponto em que as pessoas estão experimentando com formas já conhecidas ou criando híbridos ao combinar coisas diferentes da própria história da música eletrônica. Então, tem sido difícil encontrar, hoje, a mesma sensação de novidade absoluta e energia que senti quando ouvi jungle, gabba ou techno minimal nos anos 90.

Eu diria que o futuro não parece muito promissor, embora, muitas vezes, períodos de estagnação sejam prólogos para algum tipo de erupção cultural.

Estou cautelosamente otimista sobre a nova geração de músicos que só conheceram a Internet. No mínimo, estou curioso sobre o que vai acontecer daqui por diante. Me parece que vivemos uma época interessante. A velha maneira analógica de fazer as coisas – a forma como a cultura funcionava – entrou em colapso, mas acho que alguma coisa vai surgir dessas ruínas.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

"O Veneno Está Na Mesa", documentário de Sílvio Tendler sobre agrotóxicos

O veneno está na mesa (Silvio Tendler; 2011)


Para baixar o vídeo na íntegra e compartilhar com outras pessoas e movimentos:

http://www.mediafire.com/?gp1ahiemvnpcd8h

O Brasil é o país do mundo que mais consome agrotóxicos: 5,2 litros/ano por habitante. Muitos desses herbicidas, fungicidas e pesticidas que consumimos estão proibidos em quase todo mundo pelo risco que representam à saúde pública.

O perigo é tanto para os trabalhadores, que manipulam os venenos, quanto para os cidadãos, que consumem os produtos agrícolas. Só quem lucra são as transnacionais que fabricam os agrotóxicos. A idéia do filme é mostrar à população como estamos nos alimentando mal e perigosamente, por conta de um modelo agrário perverso, baseado no agronegócio.

Em O veneno está na mesa, lançado no último dia (25) no Rio de Janeiro, o documentarista mostra que o Brasil está envenenando diariamente sua população a partir do uso abusivo de agrotóxicos nos alimentos. Em um ranking para se envergonhar, o brasileiro é o que mais consome agrotóxico em todo o mundo, sendo 5,2 litros a cada ano por habitante. As consequências, como mostra o documentário, são desastrosas.





 Você pode baixar outros documentários interessantes aqui:

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Falafel Vegan


Falafel Vegan

Eu havia descido à Praia de Iracema para fazer uns exercícios e manter meu corpo ativo. Andar de bike, curtir patins & nadar no mar. Mas na noite anterior, depositei uns 250 gr de grão-de-bico crus numa tigela com água - o tanto para cobrir a leguminosa. Quando cheguei da praia, por volta do meio-dia, tomei meu banho e fui à cozinha. Lugar de homem é na cozinha, e de mulher também. Lugar de vegetarian@ é na cozinha. Já não havia água nenhuma na tigela, toda absorvida pelos grãos-de-bico. Mantive-os crus e encharcados. Vegetarian@ é piloto de fogão. Descasquei quatro dentes de alho, piquei meia cebola branca e meio pimentão [se você curtir pimentão]. Coloquei o alho próximo à lâminas do liquidificador e fui acrescentando a cebola e o pimentão. Joguei o grão-de-bico e uma colher generosa de tahine [pasta de gergelim, delícia!] e um fio de azeite. Sal eu não quis colocar. Descontruir essa cultura do sal e do açúcar refinados. Livrar-se dos temperos prontos industrializados, livrar-se da comida higienizada dos self-services baratos... preparar seu próprio rango gostoso. Isso é autonomia; isso é autogestão. Autogestão não é idéia cristalizada; mas conceito em movimento.

Gosto de pensar na autogestão como uma espécie de desgoverno; desgovernar, mais do que autogerir. Desgovernar para transcender a infantilização de homens, mulheres e crianças pelo Estado [melhor, de agora em diante com a inicial minúscula, como em deus]... O estado nos infantiliza porque nos torna dependentes e reféns voluntários de suas mentiras, nos captura em sua biopolítica de controle participativo do cidadão. O cidadão já é o sujeito assujeitado e subssumido na sociedade de controle. O cidadão colabora ativamente para garantir o ordenamento social capitalista. Desgovernar é construir o sujeito anárquico, o sujeito insurreto: o homem revoltado, a mulher libertária, a criança sublevantada...

Retirei a pasta do liquidificador e coloquei numa travessa e misturei um punhado de aveia fina, para dar mais liga. A massa desse falafel não precisa estar homogênea. Se você encontrar alguns grãos-de-bico ainda inteiriços, deixe-os inteiriços. Ponha uma frigideira larga ao fogo, com óleo de sua preferência [quanto a mim, pus óleo de semente de uvas verdes] e duas colheres de azeite de dendê [esse é o segredo, aqui revelado!]. Misturar a cultura árabe com os temperos da Bahia.

O ponto: quando você conseguir passar a massa de uma colher para a outra, fazendo um formato de miniacarajés... deposite delicadamente no óleo quente. Eu fui colocando um a um no sentido horário. Assim, quando coloquei o último na frigideira, já fui logo virando os primeiros... porque tudo é muito rápido. E você não vai querer Falafel queimado, vai?

Prepare uma travessa com papel absorvente para retirar o excesso de óleo e o sentimento de culpa por comer um alimento mais gorduroso [mesmo q essa gordura seja menos prejudicial, pq o dendê é muito benéfico a nossa saúde]...

Como se vê nas fotos, servi com arroz branco e um delicioso creme de ervilha [mando a receita depois, se vocês me lembrarem...]

Para suco: maracujá com rúcula, sem açúcar...

Depos disso só uma sesta de rede na varanda do Cauype. Sol de Fortaleza, você me fortalece.



sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Chega de Saudade - João Gilberto

Saudades do João

Nunca havia eu imaginado ter em minha discoteca o vinil "Chega de Saudades", do imenso João Gilberto... e, de repente, encontro essa maravilha na Feira da Música, aqui em Fortaleza. Ele parecia dizer "Sandro me possua..". Eu sei, ele é que sempre me possuiu. Sempre esteve em minha mente e em meu corpo, suas canções sempre foram para mim um ritornelo que se repete ad infinitum nas moléculas de minha vida... Cantarolar João Gilberto dento de um ônibus lotado, sofejar João Gilberto em meio a um Corínthinas e santos,lembrar dos versos musicados de João Gilberto enquanto subo e desço as ladeiras de Olinda durante o carnaval... 

Ontem a noite mesmo fiquei ouvindo sua sonoridade, a voz e o violão do João...


Abaixo segue uma resenha, assinada pro Alexandre Matias, que me pareceu a altura desse momento... traçando uma analogia do "Chega de Saudades" e do João Gilberto com atrajetória dos Beatles, como catalisadoras e produtores de um universo musical únicos que estão constatemente nos rodeando, como astros orbitando nossa galáxia e emitindo sinais dissonantes pro cinco mil autofalantes...


Fico devendo uma foto do álbum, mas é que minha máquina digital está com o André Moura [noso querido Dandré]... 


Sandroca

Obs.: o vinil que consegui é de 1959!!!

Chega de Saudade - João Gilberto



“Mas eles são quatro e cantam em inglês”, ria Tom Jobim no Epílogo do escolástico Chega de Saudade, escrito por Ruy Castro em 1990. Naquele ano, conta o livro, a editora de direitos autorais BMI fez uma pesquisa para saber quais as músicas mais tocadas no mundo e sua “Garota de Ipanema” estava na quinta posição, atrás apenas de quatro canções dos Beatles - daí o motivo do gracejo. A brincadeira procede, mas por mais que “Garota de Ipanema” tenha sida apresentada ao mercado americano no mês seguinte à chegada de John, Paul, George e Ringo aos EUA (tanto a Beatlemania quanto a onda de bossa nova tomaram os Estados Unidos de assalto no primeiro semestre de 1964), ela não teria o mesmo impacto caso o velho maestro não tivesse conhecido João Gilberto.
Não é exagero comparar João Gilberto aos Beatles, pelo contrário. Ambos artistas inventaram o universo musical que habitamos hoje, criando amálgamas sonoros que moldaram os ouvidos da segunda metade do século vinte.
De Liverpool, no norte da Inglaterra, os quatro heróis britânicos ruminaram a música de rádio dos anos 50 (e não apenas o rock’n’roll, mas também soul, standards, doo-wop, rockabilly, country, surf music, folk e R&B) devolvendo-a ao resto do mundo como uma sonoridade sólida, coesa e autoral – que mais tarde o mundo chamaria apenas de “rock”. Sua grande sacada: reduzir todo o instrumental a duas guitarras, baixo e bateria e mesmo assim manter o som cheio e vibrante.
De Juazeiro, no norte da Bahia, nosso herói mascou o rádio dos anos 30 e 40 (e não apenas o samba, mas também jazz, músicas tradicionais, conjuntos vocais, samba-canção, música sertaneja, choro, música de fossa e o batuque) traduzindo-o para o resto do mundo como uma sonoridade igualmente sólida, coesa e autoral – que mais tarde chamaríamos apenas de “bossa nova”. Sua grande sacada: reduzir todo o instrumental apenas para seu violão.
Este é um caso à parte. Enigmático, cheio de acordes dissonantes e inusitados, seu violão reinventava a tradição rítmica brasileira ao atrelá-la à harmonia moderna para sempre. Enquanto a mão esquerda esticava-se para pressionar cordas distantes umas das outras, a direita recolhia-se quase fechada, com o polegar conduzindo o ritmo grave nas cordas mais grossas como um surdo de escola de samba e os outros dedos puxam as cordas mais finas, repetindo o toque do repique. Por cima, a voz.
Que voz. Nem rompantes de divas de jazz, lamentos dramáticos do samba-canção ou cantos bon vivant dos clones de Sinatra. João canta com a intensidade de quem conversa, calmo e sereno, deixando o som vibrar o mínimo possível.
Explorava vazios sonoros como Miles Davis começava a fazer na mesma época, mas não queria introspecção e sim tranqüilidade. Para isso, contou com Jobim na coordenação de seu primeiro disco, Chega de Saudade, quando posicionou estrategicamente as coordenadas de seu novo mapa: seis partes de novos compositores (Lyra, Bôscoli, Jobim, Vinícius), duas de Ary Barroso e uma de Dorival Caymmi, além de um tema quase religioso e duas quase instrumentais.
Os Beatles injetavam juventude, velocidade e brilho a uma cultura popular que descobria, fascinada, os poderes da comunicação global. João veio logo depois, pedindo calma, mas não como um bedel. Com seu violão, ele plantou a semente de uma árvore de silêncio, que se infiltrou no imaginário mundial e acompanha, discreta, a genealogia da música do fim do século. E se hoje não estamos berrando todos uns com os outros, culpe João.

 Texto original, aqui:
http://www.oesquema.com.br/trabalhosujo/2007/12/10/chega-de-saudade-joao-gilberto.htm

sábado, 6 de agosto de 2011

Tofu & Patins

Praia, patins & tofu

Essa semana foi de praia, patins & tofu... Todas as manhãs fui deixar Caê na escolinha, peguei meus patins e corri para o calçadão da Praia da Iracema... Fiquei à vontade para patinar sem ter absolutamente ninguém transitando à minha frente... E aó percebi o quanto já estou bem nos patins... e voltando para o apê, pegar o caê e preparar o almoço... Espaguetti integral, feijão branco com jerimum, alface ao molho de shoyu e limão, tofu frito com alho-poró... e de sobremesa suco de maracujá e sagu de laranja-pêra... Para fortalecer o corpo e a alma do guerreiro...